Quinta-feira, Março 19

¿Por qué no te callas?

Onde anda o Rei de Espanha quando precisamos dele?

Não sei se a maioria dos católicos aceitam as gaffes e as incorrecções de um Vaticano que sempre se arrogou uma aura de infalibilidade. Se fazem vista grossa sobre readmissões de bispos lefebvristas e negacionistas.
Não acho que se revejam nas posições homofóbicas e discrimatórias face ao direito dos homossexuais de ver as suas relações reconhecidas legal e socialmente.
Não penso que vejam a mínima réstia de caridade e de bom senso em excomungar uma criança de 9 anos por ter abortado depois de te ter sido violada pelo padrasto.

Mas aquilo de que tenho plena certeza é de que não toleram, como não tolero eu, a forma como o Papa se deslocou a África para impunemente destruir o trabalho, muitas vezes desesperado, de quem há décadas luta para mudar consciências e hábitos como a única forma de combater o flagelo da SIDA.

Acabado de ser eleito Sumo Pontífice, apenas lhe impunham os paramentos papais, o Cardeal Joseph Ratzinger decidiu que queria consagrar o seu pontificado a S. Bento. A outra razão que apontou para a escolha do nome foi a de que esperava, tal como o seu predecessor onomástico, Bento XV, ter tido um pontificado curto.
Que assim seja, Sua Santidade, que assim seja.

Terça-feira, Janeiro 13

Equidistância

Eu devo ter sonhado, nesse caso, quando pensei que te tinhas referido à uma afinidade com o povo judeu. Reconheço o erro: citei-te mal quando disse que essa afinidade ia para o governo de Israel, quando claramente "as [tuas] simpatias [são] pelo povo judeu (na sua generalidade e não apenas os que habitam em Israel)". my bad again.

Há milhões de judeus em Israel e fora que serão contra este tipo de ofensiva. Pena que isso não lhes vá servir de nada e que a alternativa ao actual governo seja o Likud que, provavelmente, ainda seria mais feroz na sua tentativa "alterar as realidades no terreno". E é pena que não te sejam conhecidas iguais simpatias pelo povo palestiniano. Tornava mais verosímil a tua teoria da equidistância. Ainda assim, é melhor ficares com os que vivem fora da Palestina porque os que ainda estão lá podem vir a dar-te amizades pouco duradouras, e não havíamos de te quer ver desperdiçar amor.

O problema é que, neste conflito, não tomar partido não é uma opção. Não é possível declarar equidistância perante os crimes evitáveis das IDF e os crimes incontáveis dos terroristas do Hamas, entre as cegueira do governo de Israel e o fanatismo de um movimento radical religioso. Isso é equipará-los em natureza e responsabilidade e, no processo, desresponsabilizar o exército regular de um país ocidental e o governo eleito de um aliado da Europa e dos Estados Unidos. É como se não esperássemos mais do exército do governo de Israel do que de um qualquer bando de extremistas com meios bélicos industriais.

E os resultados dessa "não tomada de posição" estão à vista.
Dados de hoje da BBC: 920 palestinianos foram mortos em Gaza desde o fim das tréguas, dos quais 292 eram crianças e 75 eram mulheres. 13 Israelitas, incluindo 3 civis, foram mortos.

Os factos, claramente, já tomaram partido.

Read my lips

Bom, agora que isto é mesmo uma questão pessoal, interrogo-me se por acaso tu sequer lês o que eu escrevo ou se apenas imaginas aquilo que gostarias que eu escrevesse.

"eu não cometo o erro de confundir os povos com os governos". Estás a gozar, certo? Quando digo que nutro a maior simpatia e respeito pelo povo judeu tu lês que sou "tão amiga do governo de Israel". Se isto não é confundir povos com governos, não sei bem o que é confundir povos com governos.

Volto a dizer: só não percebo como é que se podem tomar partidos.

Read my lips: só não percebo como é que se podem tomar partidos.

Mais uma vez, e para que não restem dúvidas:

só não percebo como é que se podem tomar partidos

Got it?

Segunda-feira, Janeiro 12

Traumas verdadeiros

Para ser sincero, não sabia dessas tua afiliação. E quando ataquei a ofensiva em Gaza, não esperava que conseguisses transformar um argumento contra o governo de Israel num ataque pessoal, simplesmente porque não te sabia tão amiga do governo de Israel. my bad.

Aliás, eu não cometo o erro de confundir os povos com os governos. Durante anos tentei tornar claro que não confundia o povo americano com a administração Bush assim como não o vou confundir com a do Presidente Obama. Acho que isso está relacionado com a experiência, essa sim traumática, de me ver associado a nomes como Durão Barroso, Pedro Santana Lopes ou José Sócrates.

Mas a invocação do Holocausto, que está longe de ser original em mim, não tem a ver com a ironia de serem a vítimas de então os algozes de agora, por muito poética que essa ironia seja. É porque a imagem de um ataque indiscriminado e massificado sobre uma população que não tem para onde fugir, é demasiado fácil para evitar. Basta ver as imagens e ler as descrições de vítimas que chegam aos hospitais para perceber que as IDF estão a usar munições "cegas" sobre áreas residenciais, em clara violação das mais básicas leis da guerra. Basta pensar na perfídia com que se lançam panfletos avisando da escalada dos ataques ao mesmo tempo que barram a saída das pessoas, para que o sadismo das SS nos venha à cabeça.

Como vês, Joana, isto tem a ver com crimes de guerra, com a responsabilidade de um estado ocidental de observar o respeito pela Lei Humanitária sob a bandeira da qual ele próprio foi criado, com as vidas de mais de 800 pessoas, com o que resta das vidas das suas famílias nos casos em que não foram todas obliteradas.
Não tem a ver contigo. Não tem nada a ver contigo.

No fim, parece-me mais que quem transformou o argumento num ataque pessoal foste tu. E o mais interessante é que o viraste contra ti própria.

Traumas

E lá voltamos todos ao Holocausto. Enquanto olharmos para o Médio Oriente através das lentes dos campos de concentração, tenho para mim, não vamos a lado nenhum. Claro que não podemos falar da história de Israel sem falar de Holocausto e nazis e SS e todo esse bocado de história. Não é isso que peço.

Só peço é que isso deixe de ser desculpa, para ambos os lados. Que deixe de ser desculpa para Israelitas. E que Palestinianos deixem de dizer que não tiveram nada a ver com Holocausto e nazis e SS e todo esse bocado de história, para agora levarem com os Israelitas no bairro.

Quando me referi à minha data de nascimento, não o fiz por puro narcisismo (embora o tenha feito com algum narcisismo, confesso). Reparem, há pessoas a morrer de ambos os lados que nasceram muito depois do Holocausto e da abrupta criação do estado de Israel. Há Israelitas para quem aquela é mesmo a terra deles, porque foi ali que nasceram, cresceram, foram pela primeira vez ao cinema, é a terra onde viveram.

O problema do Miguel é que resolveu usar um argumentum ad hominem em resposta ao meu post. Ou seja, conhecendo as minhas simpatias pelo povo judeu (na sua generalidade e não apenas os que habitam em Israel), atacou-me a mim e não ao meu argumento.

Porque, em consciência, tenho a certeza que o Miguel, com o espírito missionário que o caracteriza, não pode estar em desacordo com quem diz que é impossível tomar partidos num confronto como o que se tem desenrolado em Gaza.

Gaza III

Eu não nasci no dia 19 de Maio de 41 no meio de um campo de concentração, mas não preciso que me digam que seria muito mais simpático usar fraldas da marca "SS" do que uns trapos à volta da cintura com a Estrela de David.

Claro que dirão que estou a comparar Israel ao III Reich, o que não me parece que esteja a fazer, até porque não comparo, mas esse é a maneira como os defensores de Israel normalmente tratam quem os critica: de anti-semitas.

O Hamas é, por defeito e natureza, um movimento extremista que, em condições normais, devia ter uma base eleitoral dentro de uma franja dentro de um grupo que, já de si, representa menos de um terço da população palestiniana. E ganhou as eleições legislativas.

É como se o extinto Partido da Solidariedade Nacional ressurgisse para ganhar a maioria absoluta ao PS. E isso só poderia acontecer de uma maneira: se o José Sócrates, para resolver o problema da Segurança Social e garantir o futuro dos nossos filhos, começasse a reunir todos os reformados e a enfiá-los em câmaras de gás, para horror do resto da população portuguesa. De quase toda, pelo menos. Aparentemente à excepção da Joana.

Como disse recentemente o Fisk, numa reportagem no campo de concentração não se dá o mesmo tempo de antena aos judeus e ao oficial das SS. Não se lhe põe o microfone à frente para ele falar dos seus sentimentos acerca dos insultos e injúrias que recebia dos judeus dentro da câmara.

Gaza II

Não percebo como é que é possível, a esta distância, ter um posicionamento em relação ao conflito de Gaza. Tudo bem que, se o exército de Israel fizesse a Lisboa (estou-me um bocado nas tintas para o resto do país) metade do que fez às pessoas em Gaza, também pensaria em formas mais ou menos sádicas de os torturar.

Mas, por outro lado, se tivesse nascido a 27 de Setembro de 80 no seio de uma família Israelita e tivesse medo de ir à padaria, porque o Hamas anda por aí, também não me importava nada que o meu exército entrasse a matar (literalmente) pela faixa de Gaza adentro.

Parece-me, e acho que não vou dizer nada de extraordinário, que a quem não está por dentro do conflito, cabe o difícil papel de não tomar partidos. E, em última análise, acabar de vez com aquele pedaço de terra maldita.

Sexta-feira, Janeiro 9

Gaza

Onde é que eu me posiciono em relação ao conflito em Gaza?

Como saberão, não sou um palestiniano xiita. Se o fosse, não apoiaria o Hamas, como imagino que a grandíssima maioria dos palestinianos, dos xiitas inclusive, não apoiaria.

Mas se o exército de Israel fizesse metade a Portugal do que está a fazer às pessoas em Gaza, eu não sei se me juntaria ao Hamas, se fundaria um daqueles movimentos que os fizesse parecer meninos de coro.

Sábado, Novembro 8

y2k, v.2.0

Deve ser difícil para a pessoa de George W. Bush perceber que a notícia do fim do seu mandato foi recebida com uma euforia global que não se via desde a passagem do milénio.

Durante estes últimos anos, principalmente depois do 11 de Setembro, muitas pessoas concluiram que o período que dista desse dia à queda do muro de Berlim, cerca de 12 anos antes, tinha sido pouco mais que um interregno. E se é verdade que o 11 de Setembro reavivou trincheiras que os anos da globalização Clinton pareciam querer esbater, não é menos verdade que passar uma esponja por cima dessa década seria, pelo menos, igualmente míope.

Mas a sensação persiste. Continua a parecer que a agenda política do milénio, com os seus objectivos de eliminação da pobreza e de cuidado do ambiente, com as suas promessas de paz no Médio Oriente, com as suas ideias de reformulação dos assentos do Conselho de Segurança, do papel da União Europeia, do papel da NATO, podem agora voltar a sair da gaveta.

Parece que o mundo, oito anos depois, pode parar de suster a respiração e largar um longo e ruidoso suspiro de alívio, que os anos Bush poderão ser tanto de um interregno quanto se julgaram que os anos Clinton tinham sido. Que se pode finalmente comemorar o nascimento de um novo milénio.

Quarta-feira, Outubro 29

Associações

Não é novidade nenhuma que uma das tácticas políticas mais usadas contra adversários é o da acusação por associação. E não se limita à política interna. Os presidentes Bush justificaram repetidamente as suas acções contra Saddam Hussein associando-o aos nazis e, mais tarde, a Al-Qaeda, com o mesmo grau zero de ligação existindo entre o ditador iraquiano e qualquer um dos movimentos.

Essa táctica também já não é novidade na campanha contra Barack Obama. Primeiro foi a associação aos actos terroristas de Bill Ayers, que fez do afro-americano com um nome parecido com Ossama, nada menos que um terrorista islâmico in the closet.

Mas agora a táctica da associação entrou num campo ideológico de longe mais interessante que os anteriores. Em resposta a um suposto canalizador chamado Joe que dizia ir ter pagar mais impostos sob a administração Obama, o candidato democrata disse que é melhor "espalhar a riqueza". Bem sei que para o comum dos europeus, que vive sob a protecção de um welfare state que não vai a lado nenhum, nada pareceria mais óbvio. Mas a América é fundado sob o signo do negócio e da realização individual que gera riqueza individual.

É claro que os republicanos pegaram na frase "espalhar a riqueza" e a repetiram à exaustão. Não contentes com os jogos de associação anteriores, decidiram que era tempo de transformar Obama num terrorista islâmico... e comunista, um homem que acredita num dos dogmas básicos do socialista. E se pensam que a associação é difícil, não menosprezem a capacidade dessa parte do eleitorado de todos os países (nós também os temos) que precisa de seja do que for para viver mais confortavelmente.

Ainda assim, trata-se, como não podia deixar de ser, de uma associação. Um tipo de associação em que se toma a parte pelo todo, algo que em retórica se chama uma "falácia de divisão". O que Obama propõe é a subida dos impostos e posterior redistribuição de parta da riqueza dos 5% mais ricos do seu país. O que o socialismo propõe é a redistribuição de toda a riqueza de todos os habitantes do país. O que Obama propõe é uma instância de justiça social baseada numa concepção da riqueza que a coloca ao serviço dos mais desventurosos (um conceito bem cristão, por sinal). O que o socialismo propõe é a abolição da propriedade privada.

O que Obama propõe não é o socialismo. É aquela parte do socialismo que a teoria liberal mais moderada adoptou, mesmo em países como os Estados Unidos (sim, mesmo lá o imposto sobre o rendimento já existe há muito tempo). O que ele propõe é uma medida de equidade e solidariedade social que não coloca em causa a estabilidade da economia (taxar 20% dos rendimentos, o máximo que Obama propõe para os mais ricos dos mais ricos, não chega nem perto dos mais de 50% que se taxa na Bélgica ou na Itália). Não é socialismo, é social democracia, é democrata. Eis uma associação em que se devia insistir.

Terça-feira, Setembro 23

Favela na margem sul

Dizem que a margem sul anda cheia de gente das favelas. O comum dos mortais (e sem querer ser demasiado crítico dos meus concidadãos, parece haver muitos mortais comuns por aqui) vêem nisto um problema.

Eu, aluno devoto do optimismo político, prefiro ver uma oportunidade. Uma oportunidade de proporcionar a estas pessoas aquilo que não tiveram no seu país. Um país onde o simples acto de caminhar pela ruas é retomar o fio a uma meada de responsabilidades.

Segunda-feira, Agosto 25

Pequim 2008

Apesar da minha relutância inicial em assistir aos Jogos Olímpicos de Pequim, de maneira a simbolizar a minha falta de apoio ao que se passa na China, acabei por acompanhá-los.
I'm a sports nut, what can I do?

Continuo a considerar nefasta a atribuição da organização dos Jogos a um regime que desde há muito faz tudo para obter reconhecimento internacional e continuo a achar que a proibição das manifestações pelos direitos humanos, por se tratarem de manifestações políticas, acabaram por enfatizar a maior das manifestações políticas: a da legitimidade internacional do próprio regime chinês.

Apesar de todos os pesares, não me arrependo de voltar atrás na minha decisão e assistir às provas. Porque os Jogos Olímpicos são uma manifestação única. A proeminência dos feitos de Phelps e de Bolt são a prova de que, mesmo quando o futebol está presente (e grandes equipas estavam representadas com alguns dos seus melhores jogadores), as pessoas afluem em massa é às provas de superação dos limites do corpo humano, a ver os grandes atletas, a ver cair os records.

E estes Jogos vão ficar para sempre na memória, como os jogos em que Michael Phelps ganhou oito medalhas com sete records do mundo e um olímpico, com provas ganhas ao centésimo e com a ajuda dos colegas das estafetas e outras em que, como disse o campeão russo Alex Popov, "ganhava até se nadasse com os pés para a frente". Vão ficar na memória como os jogos em que Usain Bolt brincou com o record dos 100m, a bater com a mão no peito, deixando os adversários a milhas. E ainda pelo record de Elena Isinbayeva no salto com vara feminino, pela medalha de prata de Oksana Chusovitina na ginástica, conseguida aos 33 anos, contra rivais que tinham quase a metade da idade dela, pelo novo record olímpico de Samuel Wansiru na maratona, pelo Nélson Évora, o quarto campeão português em 112 anos de olimpismo (com as conhecidas interrupções devidas aos conflitos mundiais).

Vão ser lembrados não por cabeçadas no peito dos adversários ou saídas a destempo aos cruzamentos, mas pelas grandes lendas, pelos atletas de eleição que nos merecem o aplauso por terem sido mais rápidos, por terem chegado mais alto, por terem ido mais longe.

Terça-feira, Abril 8

Acordo ortográfico

Alguns defensores do acordo ortográfico disseram que os "artistas" poderiam continuar a usar o grafismo que quisessem. Eu, que decidi manter com veemência o grafismo da minha língua, agradeço o elogio, se bem que o considere muitíssimo desperdiçado nos meus escritos.

A minha posição sobre este acordo tem sede numa evidência, de tal modo "evidente" aliás, que me surpreende sequer a existência de um debate. São as evoluções que fazem os acordos, não o contrário.

É bem verdade que as línguas não param no tempo. É verdade que o português que se falava em Portugal há 200 anos não é o mesmo que se fala agora e que houve correcções e mesmo introduções de novas palavras durante este tempo. Mas é exactamente por isso que não sentido um acordo ortográfico entre Portugal e o Brasil. Portugal e o Brasil, separados politicamente há quase 200 anos e culturalmente há provavelmente mais tempo ainda, seguiram cada um o seu caminho.

Foi o que aconteceu com o British English, o American English e o até um Australian English, sem que a rainha tivesse vindo em afrontamentos de rigorismo conservador dizer que quem quer falar inglês tem que ter um sotaque cockney. Lembro-me bem de ter escolhido a certa altura que iria falar o inglês americano (atitude que estou a rever) e quem queira aprender português tem todo o direito de escolher a norma brasileira, legitimamente achando-a mais útil ou fácil de compreender.

O que não faz sentido absolutamente nenhum é este esforço para fazer evoluir a norma portuguesa por decreto.

Quinta-feira, Fevereiro 21

De Espanha...

Só para que conste, acho absolutamente lamentável que em Espanha se coloquem os resultados de uma eleição à frente da estabilidade de um continente. A posição espanhola de oposição à declaração de independência do Kosovo coloca em causa a capacidade de resposta da União Europeia, que até tem tropas no terreno. E tudo porque o governo Zapatero não se pode dar ao luxo de reconhecer a independência de uma província em relação a um país soberano com medo que se abra um precedente que os bascos e os catalães possam usar.

O Chipre, a mãos com uma divisão dentro do seu próprio território e a Grécia, aliada tradicional de Nicósia, também não reconheceram a independência kosovar. Isto apesar de todas as ressalvas e chamadas de atenção dos negociadores europeus para o facto qualquer resolução da situação no Kosovo não abrir um precedente jurídico.

Já se sabia, nos bastidores diplomáticos, que eram estes os países que estavam a dificultar a vida ao Kosovo no ceio da própria União mas, por momentos, parecia-me que os esforços da Eslovénia, mesmo antes de assumir a presidência da União iriam dar frutos e a Europa ia conseguir ter uma só voz na resolução de um problema que é europeu. Seria este suceder de sucessos, depois da assinatura do Tratado de Lisboa (e o garantir da sua ratificação), que iriam dar um novo momentum ao projecto de construção europeia e começar a escrever as primeiras linhas do último capítulo de um livro que se teima em não fechar: o da Guerra Fria e das relações com o "aliado" russo.

Mas, em vez disso, estes três países decidiram demitir-se das suas responsabilidades. Em vez disso, os governantes da Espanha, um dos 5 maiores países da União, decidiram que umas décimas nas sondagens eram preferíveis ao estabelecer de condições à acção "unida" da União no último conflito nos Balcãs. Condições que estavam de resto reunidas, com forças de intervenção rápida no terreno, sob a égide da Eslovénia, o primeiro dos países da Ex-Jugoslávia a aderir à União e a assumir a sua presidência rotativa.

Domingo, Fevereiro 10

Sneaking Suspition

Agora, sempre que oiço o Barrack Obama falar de uma redução das emissões de gases de efito de estufa em 80% até 2050, sempre que o oiço falar do fim dos benefícios fiscais aos 5% mais ricos na América, sempre que o oiço falar da saída de uma guerra que nunca devia ter sido autorizada, fico quase nervoso, meio triste, à espera de ver quando é que alguém vai dar um tiro neste também.

Quinta-feira, Fevereiro 7

Eppure si muove

A desistência do Mitt Romney da corrida presidencial americana é a melhor notícia que o mundo recebeu desde há muito tempo. Estamos, com a confirmação da nomeação do John McCain, finalmente livres do espectro da irrazoabilidade e do fundamentalismo religioso na Casa Branca. Um espectro que tomou forma de homem, de carne e osso, nos últimos 7 anos.
Salvaguardada que está a eleição de um presidente moderado nas próximas eleições, podemos esperar uma verdadeira mudança política na América e, como tal, no mundo. Passaremos a ter um presidente político que se deixará maneatar pelos interesses económicos e industrias em vez de ter um industrial que, às vezes, se vê coibido a obedecer a regras de uma política que é pouco menos que um jogo. Era esse o ponto em que estávamos em 2000 e será esse o ponto que retomaremos. É essa a grande notícia: a evolução política nos países ocidentais operada com o fim da Guerra Fria e que foi interrompida pela incompetência e a má-fé do ainda presidente, poderá ser reiniciada. Voltaremos a falar de desilusão, de um(a) presidente que não fez tanto quanto se pedia ou esperava, o que é incomparavelmente melhor que reduzir a discussão com a meia dúzia mais resistente sobre o absurdo da guerra do Iraque, do barril de petróleo a $100, da negação das alterações climáticas ou da ideia de evolucionismo. A Terra, como nesse audacioso período entre o meio do século XVII e o fim do século XX, voltará a girar à volta do Sol.

Sexta-feira, Dezembro 28

Porque, no fundo...

... bem lá no fundo, a culpa disto tudo é do facto de "os neo-cons virem todos da esquerda".

Segunda-feira, Dezembro 17

Favores

Um exemplo dos favores imensos que se continuam a fazer a África:

O Chad, um país ladeado pelo Sudão, pela Líbia e pelo que costumava ser o lago Chad (já quase desaparecido), é o berço de uma das crises humanitárias mais difícies de controlar: a crise do Darfour.
Com um cenário de tal forma negra, não é pois de estranhar que o Chad seja não menos do que o maior exportador individual de petróleo para a ExxonMobil, também ela não menos do que a maior empresa do mundo, se analisados apenas os resultados dos lados das receitas.

Ainda assim, o Chad - mais um detalhe que também não vai surpreender ninguém - não tem uma gota de gasolina em seu nome que não seja importada da Europa ou dos Estados Unidos, ou do novo amigo chinês. Todo o petróleo que é extraído do Chad é transportado por um oleoduto até à costa dos Camarões, onde é prontamente enfiado em petroleiros transatlânticos (não, não vou mencionar do Exxon Valdez de novo) e acaba por ser refinado e vendido algures no "nosso lado".
O único impacto directo que a economia do Chad tem é o tráfico de mulheres para a zona do complexo petrolífero onde servem as necessidades, também elas não refinadas dos poucos que trabalham para a companhia petrolífera. Mesmo ao lado, na localidade vizinha de Atan (do francês "attend"), milhares e milhares ainda esperam pelos benefícios da presença do investimento estrangeiro no país. Nunca terão acesso nem às piscinas, nem aos courts de ténis, muito menos aos supermercados. A única coisa que alguma vez tocarão é o arame farpado que continua a separar os africanos da África que nos interessa.

Segunda-feira, Dezembro 10

Sustentabilidade Ambiental da UE em África

Fiquei à espera que o tema aparecesse nos cabeçalhos dos jornais que leio. Fiquei à espera de ouvir declarações sobre o assunto, que apresentassem soluções ou, na mais pessimista das hipóteses, que o tema fosse mencionado. Nada, rien, nothing. Ninguém falou das toneladas de lixo que exportamos para África. Ninguém falou das "ajudas" dadas a países africanos em troca de podermos exportar as nossas lixeiras a céu aberto.

Silêncio.

Falam das doenças e da sua propagação, no fomento de economias sustentadas que tenham lugar na globalização. Assim, sem que se fale deste custo (mais um, afinal de contas).

Nem uma palavra. Nada.

Quinta-feira, Novembro 29

De Volta

Achei por bem voltar a esta que foi uma das primeiras experiências da blogoesfera, achei necessidade de reactivar amizades que por motivos pessoais ou profissionais se separaram...
Conto com os contribuidores deste modesto blog para recuperar, conversas perdidas ou mesmo discussões que valham a pena...

aguardo pelos contribuidores, até lá........

charlie a.k.a. Carlos Monteiro